Resenha: O Ódio Que Você Semeia – Angie Thomas

Quantas mulheres negras escritoras com um best seller publicado vocês conhecem? Conseguem perceber como nosso mundo está totalmente pirado, quando há mais pessoas brancas no mundo tendo oportunidades do que pessoas negras ao invés de ambas as cores terem oportunidades e direitos iguais?
Eu garanto, essa não é uma resenha sobre um livro qualquer, essa é uma resenha pra impactar, sobre um livro impactante que deveria ser leitura obrigatória em todas as escolas, em todos os patamares de ensino no mundo inteiro, e é por isso que hoje estou aqui pra falar de Angie Thomas e seu livro de estréia O Ódio Que Você Semeia.

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The Hate U Give, na tradução original do livro, é cheio de significado começando pelo nome que é uma sigla para Thug Life, letra de grande sucesso do rapper Tupac (que é citado durante toda a trama), que significa “The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody” que na tradução livre significa “O ódio que você semeia na infância fode com todo mundo”. E o que isso quer realmente nos dizer? O livro de Angie Thomas gira no contexto dessa filosofia, nos fazendo questionar todo e qualquer significado acerca dessa frase. Na verdade, é por causa dessa importantíssima referência que essa história é cheia de significados, de sentimentos como raiva, indignação, tristeza, mostrada de forma real, existe aqui e agora para nós. E esse é um assunto importante que precisa ser falado, precisa ser discutido que, se você ainda não entendeu que se trata sobre Racismo e como isso é tóxico e mal, pare agora de ler essa resenha, imediatamente, e nunca mais volte, pois quero distância do preconceito!!!!!

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Muitos vão falar que o livro se trata da morte de um adolescente negro inocente pelas mãos de um policial branco, mas sinceramente, na minha visão esse foi apenas o estopim de toda a trama. O livro se trata na realidade de Starr, uma adolescente negra que mora no gueto, mas frequenta uma escola particular, tem amigas brancas, frequenta festas de pessoas brancas, tem um namorado branco e testemunhou a morte do melhor amigo. A voz dela é a mais importante da história, pois ela sabe a verdade, ela vive a verdade. E nesse contexto temos a manipulação da mídia sempre presente deteriorando a imagem de Khalil, fazendo com que o policial que o assassinou parecesse inocente e a própria polícia, nesse contexto, tem esse papel de ouvir Starr e reverter tudo o que ela disse. É revoltante, não por encontrar isso num livro, mas por saber que isso é real, que isso está acontecendo aqui, ali, em todo lugar e nada está sendo feito por essas vítimas que podem ter escolhido um caminho errado na vida, mas não justifica, por que estavam tentando sobreviver, cuidar de uma família. Essa é a imagem de Khalil, ele vendia drogas, mas por quê ele vendia drogas? Ele merecia morrer por que vendia drogas? Ele não estava armado.

“-Por que ele era traficante de drogas? Por que tantas pessoas do nosso bairro são traficantes?
Eu me lembro do que Khalil disse: ele se cansou de escolher entre a luz e a comida.
-Eles precisam de dinheiro – digo. -E não tem muitas outras formas de ganhar dinheiro.
-Certo. Falta de oportunidades – diz papai. -Os Estados Unidos corporativos não trazem empregos para nossas comunidades, e claro que não nos contratam com facilidade. Aí, merda, mesmo que você tenha diploma do ensino médio, muitas das escolas nos nossos bairros não nos preparam bem o bastante. Foi por isso que, quando sua mãe falou sobre mandar você e seus irmãos para Williamson, eu concordei. Nossas escolas não recebem os recursos para equipar vocês como a Williamson recebe. É mais fácil conseguir crack do que uma boa escola por aqui.
“Agora, pense nisso. Como as drogas chegaram ao nosso bairro? Estamos falando de uma indústria de muitos bilhões de dólares, filha. Essa merda vem voando para as nossas comunidades, mas não conheço ninguém que tenha jatinho particular. Você conhece?
-Não.
-Exatamente. As drogas vêm de algum lugar e estão destruindo nossa comunidade – diz ele. -Tem gente como Brenda, que acha que precisa delas para sobreviver, e tem os Khalils, que acham que precisam vendê-las para sobreviver. As Brendas não conseguem emprego se não estiverem limpas, e não podem pagar reabilitação se não tiverem emprego. Quando os Khalils são presos por venderem drogas, eles passam a maior parte da vida na prisão, outra indústria de bilhões de dólares, ou têm uma dificuldade enorme para conseguir um emprego e muitas vezes acabam vendendo drogas de novo. Esse é o ódio que estão semeando, filha, um sistema elaborado contra nós. Essa é a vida bandida, a vida marginal, a Thug Life.

Acho que não preciso ressaltar que Angie Thomas foi incrível nesse tapa na cara da sociedade, ela simplesmente esfregou uma verdade que ninguém conhece (ou que todos se negam a ver), que eu sinto que ela mesmo viu incontáveis e incansáveis vezes, e por isso vemos muito diálogo sobre o poder da voz, sobre não se calar, sobre denunciar os absurdos que a gente vê acontecendo, sobre lutar pra isso que mude e eu só consegui sentir que esse é o desejo da autora com esse livro, que a discriminação acabe, que os homicídios parem, que possamos viver em equidade. Quantos Khalil’s ainda vão morrer pra que isso aconteça? Essa história nada mais é do que isso, morte por descriminação, assassinato por generalização. Esse é o questionamento que Angie quer trazer.

E sinceramente, não consigo mostrar mais do que isso, O Ódio Que Você Semeia é um livro pra você ficar revoltado, pra chorar, por que o nosso mundo é uma desgraça. E foi construído com inteligência, com uma visão que qualquer branquelo na rua não tem nem noção por que vive na massa de manobra que a mídia e o governo manipulador os colocam. Esse é o ciclo vicioso que temos que quebrar e se Angie Thomas queria isso, nos tirar do senso comum, comigo ela conseguiu e espero que continue conseguindo.

Além de Starr temos inúmeros personagens fortes nessa trama, temos Seven, o irmão mais velho cujo padrasto é chefe de uma gangue, então ele tem que lidar com a mãe que apanha. Temos DeVante, que faz parte de uma gangue, que perdeu o irmão em briga de gangue e não quer continuar nessa vida por que não quer matar ninguém. O Próprio pai de Starr, Maverick, foi preso por causa da gangue que fazia parte e ficou anos sem ver a família e quando saiu decidiu que tinha que parar, este é um super pai que dá inúmeras lições nesse livro. Temos a senhora Ofrah que lidera protestos para que Khalil tenha justiça e advoga por Starr no tribunal. Tio Carlos que é um policial negro que está ao lado de Starr, que abriga DeVante. E mais forte ainda, Khalil, que apesar de estar vivo em breve instantes do livro, se mostra presente em todo o restante mostrando que ele não era apenas um adolescente que traficava drogas, mas sim um adolescente com uma avó com câncer, uma mãe viciada em crack e tinha que viver entre a luz e a comida.

Gostaria de continuar falando sobre O Ódio Que Você Semeia, pois acho importante falar sobre como esse livro é de uma enorme representatividade para o povo negro numa sociedade doente, medíocre e assassina. Mas vocês precisam ler e sentir esse livro por vocês mesmos, assim como eu que chorei do início ao fim e fiz com que essa leitura entrasse no meu ranking de favoritas que com certeza farei releitura no futuro.
Apesar do final, que a gente sabe que seria aquilo mesmo e por isso é mais revoltante ainda, esse livro é perfeito e precisamos de mais autoras negras fazendo sucesso e escrevendo como Angie Thomas.
E, por fim, NÃO sejam massa de manobra!!!! Vão ler esse livro, assistir ao filme. Essa não é uma distopia, é a realidade e precisa ser mudada com urgência!!!!

E antes de finalizar essa resenha, gostaria de deixar uma recomendação de música que acompanhou minha leitura e que faz parte da trilha sonora do filme, espero que gostem.

Hugs and Kisses :*

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