Resenha: Pátria – Fernando Aramburu

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Olá galera! E bem-vindos a agosto, um mês que todo mundo diz que nunca acaba, mas, vamos ser sinceros, se isso significar mais tempo para lermos e colocarmos nossa meta em dia, tudo bem, certo? haha Bem, vamos começar o mês em grande estilo com uma resenha! Sim, nossa #Locomotivaliterária vem com o livro “Pátria”, de Fernando Aramburu – da caixa de julho do Intrínsecos (e você pode conferir o unboxing dessa caixa aqui!). Aproveitem a leitura!

“Pátria” é um livro que conta a história, principalmente, de duas famílias que vivem no País Basco (fronteira entre a França e a Espanha) e que, por muito tempo, foram unidas. Bittori e Miren são as matriarcas dessas famílias, mas quando o livro começa, elas já não mais amigas há um bom tempo. Nessa obra, Aramburu nos conta as influências do ETA (Euskadi Ta Askatasuna – “Pátria Basca e Liberdade”) nessas duas famílias – de um lado, a perda para o terrorismo daqueles que buscam pela liberdade, do outro, a militância e o nacionalismo puros. Quando o cessar-fogo é anunciado, então é hora de buscar o perdão.

O livro é escrito em terceira pessoa, com foco, principalmente, em Bittori e Miren. Mas outros sete personagens se dividem na narrativa de Aramburu, todos da família das mulheres. Ao passo que a história começa com o cessar-fogo do ETA, no presente, o autor volta muito ao passado para nos colocar em perspectiva de tudo aquilo que moldou quem são essas pessoas no futuro, depois da “trégua” que o grupo terrorista dá – e que ninguém sabia se seria pra sempre, ou apenas temporário. Creio que Aramburu focou sua narrativa nesse passado, com inserções do presente para mostrar a que ponto as coisas chegaram, tudo pela “liberdade” de um país.

A última coisa que Aramburu se preocupa é com a linearidade da história e dos fatos. Como disse, é uma mistura entre passado e presente, às vezes sem pré-anúncio, uma vez que o autor não coloca artifícios que facilitariam. Ele deixa para que a própria narrativa mostre que não estamos mais no presente. E, se pararmos para pensar, levando em conta o ponto em que estamos no passado e o ponto que estamos no presente, isso faz todo sentido. Tudo isso é muito bom, como sempre digo, pois nos tira da zona de conforto. Outro ponto positivo é que os capítulos são curtos, deixando a leitura mais fluída, contrastando com uma narrativa mais diferente e, às vezes, de pouco diálogo.

Algo interessante na narrativa de Aramburu é a forma como às vezes insere pensamentos ou falas dos nove personagens no meio da narração, principalmente das protagonistas. Às vezes apenas uma palavra, uma interjeição, uma frase. Enfim, é perceptível que não é mais o autor que está falando. Parece que autor e personagem se conversam, e nós leitores estamos observando essa prosa. Isso acabou dando mais vida à história. É uma narrativa diferente de todos os livros que já li. É uma narrativa mais “difícil”, no sentido de ser diferente do que usualmente leio.

Falando um pouco dos personagens, Bittori meio que se tornou minha personagem preferida desse livro. Eu acho que há muito em sua personagem que não está escrito de fato, mas que a narrativa do autor permite que nós vejamos. Ela é daquele tipo “sincerona”, algo que eu gosto muito. Miren também, mas há muito rancor nas palavras dela. No entanto, algumas das melhores partes da obra é quando o autor sai da questão do nacionalismo e vai para as relações humanas, essas coisas de família, sabe? A mãe questionando quando o filho vai se casar, ou se preocupando como a filha veste ou como aparenta ser (e é assim que começa a história).

Isso tudo, pra mim, mostra dois pontos do livro: o nacionalismo, que demostra a agressividade e o terror, e as relações humanas, tornando a obra mais leve. Esse contraste é muito importante para que o leitor não se “afunde” apenas no sangue e na violência que o ETA trouxe para esse país, mas também não acredite que está tudo bem, que são apenas picuinhas de família, deixando o terror de lado. Não, a obra de Aramburu tem os dois extremos. Há o patriotismo ferrenho, que quer ser conquistado a força, mas há também os típicos problemas de famílias que todos, vez ou outra, passam por.

É um livro sobre nacionalismo, sim, e como a luta pela liberdade do País Basco muda a vida das pessoas. Mas também fala do preconceito, da diferença de línguas (basco ou castelhano). O ETA mesmo entra como coadjuvante, mas ele está presente em toda a história, nas entrelinhas. O que nos leva a querer saber mais sobre esse movimento, suas consequências, o que foi (e isso a revista que veio na caixa ajuda muito). Mas acho importante voltar a falar isso da língua. Há muito preconceito apenas com a língua que se fala lá. O ETA não admite nada diferente daquilo que é original do país. E o autor, muito inteligente, insere muitas palavras bascas que nós não sabemos – nos colocando dentro daquele país e ao lado das pessoas que não falam essa língua.

Voltando a falar dos personagens. Isso pode ser um spoiler, mas é algo relevado na própria sinopse, e é um fato comum desde o início da obra, então, me perdoem… o marido de Bittori é assassinado pelo ETA. Isso é fato e não é preciso discutir – e é o que leva Bitorri para longe da vila onde por tantos anos moraram. Mas preciso destacar a morte desse personagem. Os últimos momentos da vida de Txato são cruéis… Não a morte em si. Tudo antes, a forma como o autor descreve sua última refeição, a última vez que marcou no calendário quantos dias estava sem fumar, a última vez que tirou um cochilo… É de arrepiar.

Miren é uma mulher amarga e rancorosa, mas que justifica isso pela luta pelo nacionalismo. A mudança de atitude dela com a então amiga, Bittori, é cruel de se ler e imaginar. Tudo porque seu filho, Joxe Mari, é um etarra e o marido da amiga passou a ser ameaçado e considerado contra essa causa (antes de falecer). Essa luta do ETA é algo difícil de se imaginar, confesso, pois não vivemos naquele ambiente. E essa influência que a causa tem em Miren, de ir a protestos, de pedir a liberdade do país contra as pessoas “do contra”, nos leva muito a essa perspectiva de quem não esteve lá e não conheceu o que foi o ETA.

Confesso que me identifiquei muito com Gorka, irmão de Joxe Mari. Eu o vejo como um manifestante de uma forma totalmente diferente, por meio da leitura e da escrita. É um cara que nós nos identificamos na hora. Um tanto sufocado por conta da pressão de também sair às ruas e gritar. Mas ele sabe que não é assim que pode mudar o mundo, ou seu país. E ele mostra isso, depois. Por isso é uma obra tão importante. O livro de Aramburu nos apresenta diferentes personagens, com diferentes linhas de pensamentos a respeito de um mesmo tema. Nessa obra, me identifiquei com um pouco de todos, e talvez essa tenha sido a intenção do autor.

Penso nessa história, assim como outras desse clube, algo como se você estivesse indo a uma cidade ou país que nunca foi. Nesse caso, o País Basco. Você não conhece nada, a língua, a cultura, os costumes, a comida. É o mesmo com a escrita. Nos primeiros dias, assim como nos primeiros capítulos, as coisas são novas e demoram a “engrenar”. Mas depois, você vai conhecendo melhor, se acostumando e até gostando. Foi assim com essa história. No começo, a escrita do autor me “pegou”, foi um tanto quanto difícil. Mas depois deslanchou, pois fui me familiarizando à sua escrita e amei, simplesmente amei.

Não irei me estender mais, além do que já o fiz. Só quero dizer que recomendo muito essa leitura, assim que ela for lançada pela Intrínseca. Vale a pena leitura, ainda que não seja o tipo de livro que você esteja acostumado a ler. Isso é algo que esse clube tem me mudado: a dar mais chance àqueles livros que vemos na prateleira, mas não nos encanta de início. Aí é que está o poder das palavras, quando começamos a ler, vemos o quanto estávamos errados. Espero que tenham gostado dessa resenha! Até a próxima, galera!

Ficha técnica:

Pátria

Autor: Fernando Aramburu

Editora: Intrínseca/Intrínsecos

Ano: 2019

512 páginas

2 opiniões sobre “Resenha: Pátria – Fernando Aramburu

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