Resenha: Jantar Secreto – Raphael Montes

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Olá! Hoje a resenha é de um livro que eu estava ansioso para ler há muito tempo, mas acabei postergando a leitura… finalmente, adquiri a obra de Raphael Montes, “Jantar Secreto”, que simplesmente tem a essência de um livro com seu nome, com surpresas, muito sangue e reviravoltas. Se você quer saber o que achei de suas outras obras, é só clicar no título do livro (“Dias Perfeitos”, “Uma Mulher no Escuro” e “O Vilarejo”). Bom, sem mais delongas, acompanhe a resenha de “Jantar Secreto”, aproveite a leitura!

Dante, Leitão, Miguel e Hugo formam um grupo de amigos que moram juntos e que foram para o Rio de Janeiro, saindo do interior do Paraná, para cursar faculdade e ter uma vida “decente”. Cada um em sua área: Dante, administração; Leitão, ciência da computação; Miguel, medicina; e Hugo, gastronomia. Acontece que nem tudo é perfeito. O aluguel não é barato e a grana é curta. Então, eles têm uma ideia: servir jantares secretos para um seleto grupo de pessoas. No cardápio, uma carne exótica e diferente, que nem eles experimentaram… ainda.

Bom, Dante é o narrador da história. É ele quem conta tudo o que aconteceu com eles naquele período, desde quando iniciaram o negócio de servir jantares secretos, até que rapidamente se tornou uma espiral de crimes, começando por delitos pequenos, até coisas inimagináveis que nem eles pensaram que seriam capazes de fazer. E logo de cara, quando começamos a ler, há uma proximidade grande entre narrador e leitor, o que é bem característico de Raphael Montes.

Com certeza você já leu um livro que não conseguia largar, certo? Esse livro foi desse jeito comigo. Eu tive que parar de lê-lo, pois tinha que acordar cedo no dia seguinte, mas a resistência era grande. Em poucas horas, 100 páginas passaram voando. Tudo isso define bem uma história de Montes e eu não consigo parar de me surpreender com a narrativa desse cara. É simplesmente genial. Tem uma agilidade muito interessante, diálogos bem construídos, dentro da ideia do humor negro, suspense, hipérbole etc. Enfim, o autor tem uma objetividade incrível quando se trata de seus romances, e ainda assim consegue nos dar todos os detalhes, inclusive os sórdidos, para entender a história.

Se eu começasse a ler esse livro sem saber quem era o autor, eu conseguiria com certeza identificar a narrativa de Montes. E não porque ele seja repetitivo em sua história. Mas porque sua escrita se tornou indistinguível, para mim. E isso, na minha visão, define bem um autor f*da como ele, que consegue criar uma história dessa magnitude, louca como tal, mas ao mesmo tempo retratando várias realidades dentro de cada personagem e capítulo. Não há complexidade nesse caso, há o fato narrado do que aconteceu com aquelas pessoas em determinado momento da vida delas – e todas as consequências disso.

A narrativa é bem moderna, e isso foi bem interessante, nos aproximando da leitura e do próprio narrador. Aliás, isso também é algo interessante em Montes, nos livros que li em primeira pessoa dele, sempre senti uma certa aproximação com o narrador, sabe? Ele conversa com você, como se estivesse, mesmo, contando a história para você, deixando perguntas capciosas, que realmente nos deixam sem resposta ou pelo menos buscamos responder. E, ainda, deixando pequenas pistas do que teríamos mais para frente na leitura.

Outra coisa interessante na obra é que ele não usa apenas a primeira pessoa narrando a história. Ele também utiliza outros meios, como carta, e-mails, mensagens de WhatsApp, enfim. Ele conta todos meandros da história usando diferentes artifícios e meios de narrativas. Isso remete muito à linguagem moderna que o autor traz para essa obra, pois todos esses artifícios contribuem muito para a história. Eles fazem sentido como e quando são usados.

Da história, só posso dizer que ela é maluca, mas que ainda assim retrata diferentes aspetos da natureza humana, sabem? Do meio para o fim, o livro começa a ganhar um ar mais de suspense e irrealismo crescente, mas retratando uma juventude ferr*da e que não consegue medir as consequências dos seus atos. Mas Montes incrementa essa narrativa com um humor negro avassalador e um exagero proposital em determinados momentos que não deixam dúvidas de que estamos lendo uma ficção. Mas até que ponto essa história está longe da realidade que não conhecemos? Casos nesse sentido já são conhecidos, claro que não na mesma dimensão e como um negócio (eu acho). Enfim, a mente de Raphael Montes é brilhante ao criar uma narrativa tão absurda e ao mesmo tempo tão instigante.

Ele também brinca muito com o leitor, principalmente pela descrição que o próprio dá na sinopse, de remeter ao humor negro, ao suspense, a fábula da violência (principalmente no Rio de Janeiro) e isso da juventude sem rumo. Tudo isso se mistura. O autor se utiliza de muitos nomes difíceis de comida e processos culinários de dar inveja. Ele também descreve muito bem sabores e cheiros, praticamente nos fazendo sentir o mesmo cheiro. O gosto, já é um tanto difícil haha mas ele abusa tanto em sua narrativa, a ponto de nos dar receita, como se nós fôssemos preparar nosso jantar secreto…

Preciso dizer que tenho gostado cada vez de romances brasileiros no estilo de Montes, citando cidades brasileiras, coisas típicas do Brasil, realmente nos aproximando da obra e de coisas que não conhecemos em nosso próprio país. Até alguns anos atrás, eu só conhecia os clássicos brasileiros (e nem havia lido muitos deles). Mas tenho conhecido mais autores brasileiros e romances nacionais que realmente me encantaram e surpreenderam. Quando lemos uma obra de fora do Brasil, conhecemos muitos outros cantos do mundo, diferentes culturas. Mas as histórias que se passam aqui realmente trazem uma riqueza maior da nossa cultura.

Seguindo em frente, quando estava para concluir a obra, as coisas começaram a se agitar mais. Eu mesmo, confesso, fiquei ansioso enquanto terminava as páginas, querendo saber todos os segredos, entender o desfecho. As páginas finais, antes do epílogo, são simplesmente absurdas, sangrentas e de revirar o estômago (me perdoe se isso for um spoiler). Mas preciso dizer, ao passo que cada frase ia se completando, o estômago se revirava mais. Mas passou, e podemos respirar um pouco mais aliviados, apesar da carnificina. Como é Dante que narra a história, o alívio dele é o nosso alívio quando as coisas finalmente terminam, como se dissesse: esse inferno finalmente acabou. E essa é mesmo a sensação.

Quando cheguei no epílogo, então, pensei: “estou satisfeito com essa conclusão. Mas será que ele não preparou nenhuma surpresa para o leitor?”. Se você também se fez essa pergunta, é porque sabe que Montes tem dessas coisas… E, mais uma vez, ele não decepciona, finalizando essa obra como um verdadeiro mestre desse gênero. Um dos melhores escritores que já li, sem sombra de dúvidas. É tão genial e inacreditável, que tive que ler novamente as páginas finais. E enfim disse, “agora sim estou satisfeito!”.

E é isso. Simplesmente adorei a obra, diferente de tudo o que já li, brasileiro ou não, e que se fosse adaptado para a TV, acho que seria um tanto quanto controverso, mas eu assistiria haha. Esse irrealismo da história, mas tão perto da realidade, é sensacional. Indico muito esse livro, mas deixo um aviso: é bem sangrento e pode fazer seu estômago revirar um pouco, mas vale a pena. Espero que tenham gostado dessa resenha. Até a próxima!

Ficha técnica:

Jantar Secreto

Autor: Raphael Montes

Editora: Companhia das Letras – 2ª reimpressão

Ano: 2016

360 páginas

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